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Polícia diz não ter dúvidas de que Amarildo foi torturado na Rocinha

02/10/2013 21h00 - Atualizado em 02/10/2013 21h06
Polícia diz não ter dúvidas de que Amarildo foi torturado na Rocinha
Segundo promotor, pedreiro foi morto por ser 'fonte' do tráfico.
Dez PMs foram indiciados pelo desaparecimento de Amarildo.
Promotor diz que Amarildo foi morto por ser fonte de informação do tráfico
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A Polícia Civil do Rio disse nesta quarta-feira (2) não ter dúvidas de que o ajudante de pedreiro Amarildo de Souza foi torturado na favela da Rocinha, na Zona Sul do Rio, no dia 14 de julho, quando desapareceu após ser levado para averiguação, como mostrou o Jornal Nacional (veja na reportagem ao lado). Dez policiais militares, incluindo o ex-comandante da UPP da Rocinha, foram indiciados no inquérito entregue nesta terça-feira ao Ministério Público do Rio pela Divisão de Homicídios (DH).
Segundo o delegado, o ajudante de pedreiro foi torturado na comunidade, mas não dentro do contênier que serve de base da unidade de policia pacificadora. "Dentro do contêiner, não.
Dentro do contêiner não existia marcas de sangue", disse o delegado Rivaldo Barbosa, acrescentanto que a tortura pode ter sido realizada em um matagal. "É uma das nossas possibilidades.
Cronologia Amarildo - atualizada (Foto: Arte G1)
De acordo com a polícia, durante as investigações, moradores contaram que já levaram choques e que foram asfixiados com sacos plásticos por policiais em busca de informações sobre traficantes e armamento.
'Fonte do tráfico'
Segundo o promotor do Ministério Público, Homero Freitas, que vai analisar o inquérito para decidir se oferece denúncia contra os PMs até a próxima quarta-feira (2), Amarildo foi morto enquanto policiais tentavam obter com ele informações sobre o tráfico na Rocinha. O advogado da família do desaparecido, João Tancredo, negou envolvimento do ajudante de pedreiro com traficantes.
“A conclusão fica mais lógica no sentido de que Amarildo era uma fonte grande de informações. Amarildo não era um traficante, mas prestava serviços pequenos para o tráfico. Era churrasqueiro do tráfico. Tem provas testemunhais dizendo que, inclusive, ele já tomou conta do paiol de armas do tráfico. O Amarildo com certeza poderia informar para a polícia onde teriam drogas em depósito e armas em depósito. Então, na verdade, ele foi levado do centro de controle para o contêiner da UPP pra prestar esse tipo de informação e nunca mais foi visto”, afirmou.
Segundo Homero Freitas, o ponto alto das investigações foram as provas técnicas, que mostram contradição entre o resultado da perícia e o depoimento dos policiais militares. O promotor disse que a perícia feita a partir das imagens de uma câmera de segurança comprovam que Amarildo não deixou a sede da UPP pela escadaria que leva a parte baixa da comunidade
“Todo mundo que tinha que descer pela escada desceu, passou pela câmera. Desce muita gente nessas imagens, mas Amarildo, naquele período, naquele dia, nem depois passou por aquela escada. Ele pode ter saído da UPP pelo caminho que fosse, mas pela escada ele não passou”, disse o promotor.
Buscas continuam
Depois do indiciamento e pedido de prisão preventiva de dez PMs no inquérito sobre o desaparecimento de Amarildo, a Polícia Civil diz que continua as buscas pelo ajudante de pedreiro. Nesta quarta-feira, o delegado disse que Amarildo pode ter sido morto durante uma sessão de tortura.
Para o delegado Rivaldo Barbosa, da Divisão de Homicídios (DH), as provas do inquérito são suficientes para indiciar os suspeitos por tortura e ocultação de cadáver. Os investigadores, porém, ainda apuram onde teria ocorrido a tortura contra Amarildo. Os policiais também vão continuar as buscas pelo ajudante de pedreiro.
“Outras diligências serão feitas pela divisão de homicídios nos próximos dias. o inquérito está encerrado, agora não podemos deixar a informação chegar e nós procurarmos o corpo do Amarildo”, disse Rivaldo.
O relatório da Polícia Civil sobre o desaparecimento de Amarildo foi entregue na noite desta terça-feira (1) ao Ministério Público. Entre os indiciados está o major Edson Santos, que comandava a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) quando Amarildo desapareceu.
Além do major, foram indiciados o tenente Luiz Felipe Medeiros, o sargento Jairo da Conceição Ribas e os soldados Douglas Roberto Vital Machado, Marlon Campos Reis, Jorge Luiz Gonçalves Coelho. Vítor Vinícius Pereira da Silva, Anderson Cesar Soares Maia, Rodrigo Wanderley da Silva e Fábio Brasil da Rocha Graça. Todos negam as acusações.
Em Brasília, a ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos do governo federal, afirmou que o indiciamento dos PMs é um avanço para as instituições e que não se surpreendeu com o resultado do inquérito.

Entenda o caso
Amarildo sumiu após ser levado à sede da UPP da Rocinha, onde passou por uma averiguação. Após esse processo, segundo a versão dos PMs que estavam com Amarildo no dia 14 de julho, eles ainda passaram por vários pontos da cidade do Rio antes de voltarem à sede da Unidade de Polícia Pacificadora, onde as câmeras de segurança mostram as últimas imagens de Amarildo, que, segundo os policiais, teria deixado o local sozinho.
No dia 27, uma ossada achada em Resende, no Sul Fluminense, passou por uma necrópsia, motivada pelas suspeitas de que poderia ser de Amarildo. O relatório, porém, foi considerado inconclusivo.
Testemunhas deixam o Rio
Duas testemunhas-chave do caso do desaparecimento do ajudante de pedreiro deixaram o Rio de Janeiro na noite do dia 20 de setembro. A mãe e o filho adolescente que contaram em depoimento à Divisão de Homicídios que foram coagidos por policiais para dar falsas declarações sobre o caso pediram ingresso no Programa de Proteção à Criança e ao Adolescente Ameaçado de Morte, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos. O programa confirmou o pedido feito pelas testemunhas.


g1.globo