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O peso de um gol

A final da Libertadores não é decidida com a regra que, em caso de igualdade de saldo de gols, atribui maior peso aos que foram marcados fora de casa. Trata-se de um regulamento esdrúxulo, implantado há poucos anos, que já prejudicou alguns times, entre os quais o Fluminense – que em 2008 perdeu de 4 x 2 para a LDU em Quito, fez 3 x 1 no Maracanã e ainda assim teve que jogar a prorrogação e encarar uma decisão por pênaltis de amargo desfecho. Conto isso para esclarecer que o belo gol marcado por Romarinho, na última quarta-feira, em plena Bombonera, vale exatamente o que pesa pela fria matemática da competição: um gol. Mas o que os matemáticos nem desconfiam é que no universo do futebol alguns gols valem muito, muito mais do que outros. Foi o caso do coelho que Romarinho tirou da cartola, após belo passe do Sheik.

Não. Eu não estou dizendo que tudo está decidido em favor do Corinthians. No entanto, basta reparar na reação dos jogadores boquenses após o apito final para que fique claro o quanto o gol do abusado atacante doeu em suas almas. Aquele gol foi uma estocada traiçoeira, desferida com uma adaga fina e sutil, porém capaz de fazer sua vítima sangrar dolorosamente por muito tempo. Se o sangue xeneize continuará correndo até o final do jogo da próxima quarta, não sabemos. Mas que os argentinos saíram de campo ainda lambendo uma ferida aberta, disso não resta dúvida. É o que os teóricos do esporte chamam de vantagem psicológica.

O jogo do Pacaembu promete ser o mais nervoso dos últimos tempos. Nem sei se nervoso é a palavra, porque, cá entre nós, Corinthians e Boca já provaram ao longo da competição que não são de ficar nervosos. A partida estará mais para tremendamente estudada do que para nervosa, ao menos dentro de campo. Para quem está do lado de fora, torcendo loucamente a favor ou contra o Corinthians – um clube que não parece consentir a indiferença – o confronto será enlouquecedor. Consciente do efeito que o gol de Romarinho causou nos rivais, Tite deve soltar mais seu time nos primeiros minutos, em busca de um gol tranquilizador. Calejado, o Boca deve começar cauteloso, esperando a poeira baixar.

Se o gol corintiano não surgir da pressão inicial, a partida tende a entrar num ritmo cadenciado, com os adversários arriscando pouco. O Corinthians sabe que não deve jogar os 90 minutos – que podem chegar a 120 – pressionando. Nenhum time aguenta tal ritmo. Mesmo porque os argentinos vêm jogando tão bem fora de casa quanto na Bombonera. Paciência será a chave do título, para ambas as equipes. Os brasileiros sabem que têm uma defesa confiável, mas não podem fazer faltas próximas da área nem conceder muitos escanteios, situações em que os pés de Riquelme podem ameaçar. Romarinho? Não creio que será escalado de início. Mas o jovem milagreiro pode ser a grande arma secreta, capaz de saltar do banco para incendiar a torcida e aterrorizar os rivais. Quem sabe se, como um toureiro profissional, o garoto não consegue acertar a estocada definitiva, bem no coração do touro ameaçador?
 
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