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Imagine um mundo sem religião

Imagine, cantou John Lennon, um mundo sem religião. Imagine um mundo sem suicidas com bombas, 9/11, 7/7, cruzadas, caça às bruxas, conspiração da pólvora, disputa pela Caxemira, partição Indo/Paquistanesa, guerras entre Israel/Palestina, os massacres dos Sérvios / Croatas / Muçulmanos, "problemas" no norte da Irlanda. Imagine que o Taliban que não tivesse explodido as estátuas antigas, mutilado mulheres por mostrarem um pedaço da pele, ou decapitações públicas de blasfêmios e apóstatas. Imagine que não existissem perseguições aos Judeus - não haveriam Judeus para serem perseguidos, porque num mundo sem religião eles teriam, há muito tempo, se misturado com outras populações.

É claro que as perseguições e matanças religiosas de hoje não são motivadas por disputas teológicas. Os homens armados do IRA não matam Protestantes (ou vice-versa) por causa de discórdias a respeito de transubstanciação. O motivo mais provável é que seja uma vingança tribal. Foi um "deles" que matou um de "nós". "Eles" expulsaram "nossos" tataravós de nossas terras ancestrais. As queixas são econômicas e políticas, não religiosas, e as vinganças se arrastam há séculos.

Mas apesar de discórdias tribais por si não terem nada a ver com religião, o fato de que existem duas tribos tem tudo a ver com religião. Existe, sem sombra de dúvidas, distinções tribais de origens genéticas e linguísticas, mas no norte da Irlanda existe alguma coisa além de religião? O mesmo é aplicado para o conflito Indo/Paquistanês, Sérvio/Croata, e várias regiões da Indonésia e África. Religião é o rótulo que mais divisivo de identidade de grupo e hostilidade. Se um engenheiro social quiser bolar um sistema para perpetuar as inimizades mais cruéis de hoje, ele não poderia bolar algo mais maléfico que educação sectária (educação que separa as pessoas). As escolas da fé que ensinem todas as religiões podem até fazer algum bem em comparação com as outras. Mas o cerne das escolas da fé é que as crianças de "nossa" tribo devem ser ensinadas com "nossa própria" religião. Já que as crianças da outra tribo são simultaneamente ensinadas com a religião rival e, é claro, a versão rival da história de vingança perpetrada ao longo dos tempos, o prognóstico é bem previsível.

O que significa falar de crianças terem uma religião "própria"? Imagine um mundo no qual fosse normal falar que uma criança Keynesiano, de uma criança Hayekiana, ou de uma criança Marxista (todas são teorias econômicas e sociais)? Ou imagine uma proposta para investir dinheiro do governo em escolas primárias do PSDB, do PMDB, do PT e do PSTU? Todos concordam que crianças são muito jovens para saber se eles são Keynesianas ou Monetaristas, do PT ou do PSD; muito jovens para carregar o fardo destes rótulos. Por quê, então, nossa sociedade é feliz em estampar um rótulo como Católico ou Protestante, Muçulmano ou Judeu, numa pequena criança? Não é, quando você pára para pensar, um tipo de abuso mental infantil?

Uma vez falei exatamente isto num debate televisionado com uma porta-voz Católica Romana. Eu esqueci o nome dela mas ela provavelmente era um tipo de "governanta", ou "madre superiora" de uma escola de ensino religioso. Quando eu disse que uma criança do ensino primário era muito jovem para saber se ela é uma criança católica ou uma criança protestante, ela retrucou: "Venha e converse com algumas das crianças de nossa escola Católica! Eu posso te garantir que elas sabem muito bem que são crianças Católicas." Bem, sim, eu acredito muito bem disso. O lema Jesuíta - "Dê-me uma criança em seus primeiros sete anos, e eu te devolverei um homem" - não é menos sinistro por ser familiar (em suas várias versões) ao ponto de ser clichê?

Mas, você pode perguntar, e se a religião for verdadeira? (E se minha religião em particular for verdadeira, você diria, pois crenças mutualmente contraditórias não podem ser todas verdadeiras). Com certeza a doutrinação sectária não é um abuso caso a alma imortal da criança seja salva? Apesar da convencida presunção, eu posso ver como você pode sinceramente acreditar neste ponto de vista se você sinceramente acreditasse que possui a verdade dada por Deus. Deixe-me, então, ser ambicioso, se não presunçoso, e tentar persuadir você de que você não possui a verdade. Sua confiança em teu Deus é simplesmente errada!

Por quê você acredita no teu Deus? Porque ele fala dentro de sua cabeça? Isso com certeza não é um argumento confiável. Os assassinatos cometidos pelo Estripador de Yorkshire foram ordenados por vozes percebidas como sendo de Jesus dentro da cabeça do assassino. O cérebro humano é perfeitamente alucinante, e alucinações não são boas bases para crenças a respeito do mundo real. Talvez você acredite em Deus porque a vida seria intolerável sem ele. É um argumento ainda mais fraco. Talvez a vida seja simplesmente intolerável. Pois! Todos os tipos de coisas são intoleráveis, mas isso não as torna falsas. Pode ser intolerável que você esteja morrendo de fome, mas você não vai transformar uma pedra em algo comestível ao acreditar - não importa com quanta paixão e sinceridade - que ela é feita de queijo.

De longe a razão favorita para acreditar em Deus é o argumento da improbabilidade. Olhos e esqueletos, corações e células nervosas são improváveis de terem surgido ao acaso. Máquinas feitas por homens são improváveis também, e elas são projetadas por engenheiros com um propósito. É claro que qualquer ignorante pode ver que rins e asas, orelhas, e corpúsculos sanguíneos também são projetados com um propósito, por um Engenheiro Mestre, talvez? Bem, talvez qualquer ignorante possa ver, mas vamos parar de agir como um e crescer. Faz mais de 146 anos desde que Charles Darwin nos deu o que é indiscutivelmente a ideia mais esperta que já ocorreu à mente humana. Ele demonstrou um processo funcional pelo qual forças naturais, sem qualquer tipo de design, pode através de demorados passos graduais gerar uma elegante ilusão de design, a níveis praticamente ilimitados de complexidade.

Eu escrevi diversos livros sobre o assunto e obviamente não posso repetir todos os argumentos num pequeno artigo. Deixe-me dar somente duas diretrizes para um bom entendimento. Primeiramente, a falácia mais comum a respeito da seleção natural é que é uma teoria de "chance". Se a seleção natural realmente fosse um processo de "sorte", é claramente óbvio que ela não poderia explicar a ilusão do design. Mas a seleção natural, quando propriamente entendida, é a antítese de "chance". Em segundo lugar, é normalmente dito que a seleção natural torna Deus desnecessário, mas deixa sua existência como uma possibilidade verídica. Eu acho que podemos ir mais longe. O argumento da improbabilidade, que é tradicionalmente utilizado em favor da existência de Deus, na verdade é, quando você pensa a respeito com cautela, o argumento mais forte contra ele.

A beleza da evolução Darwiniana é que ela explica o altamente improvável, através de pequenos passos. Começa da simplicidade primal (relativamente fácil de entender) e vai se desenvolvendo, através de pequenas mudanças plausíveis, até chegar em entidades complexas, que através de qualquer processo não-gradual, seria muito improvável. Design é uma alternativa real, mas somente se o próprio designer é o produto de um processo "de escalada", tal como a evolução através da seleção natural, neste planeta ou em outro. Talvez existam raças alienígenas tão avançadas que nós os adoraríamos como deuses. Mas eles também devem ser, em última instância, explicados através de uma "escalada" gradual. Deus que existem ab initio (desde o princípio) são eliminados através do Argumento da Improbabilidade, com muito mais certeza do que a erupção instantânea de olhos ou articulações de cotovelo.

A fé religiosa não é somente uma força maligna no mundo. Suas próprias fundações são destruídas e negadas pela lógica científica. Imagine um mundo onde ninguém tem medo de seguir tais pensamentos independente de onde eles levem.

Traduzido e adaptado por mim.
Original em http://old.richarddawkins.net/articles/1-imagine-no-religion