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Brasileiros sonham com o carro do futuro

Segundo estudo, motoristas desejam desde piloto automático até alertas computadorizados sobre tráfego.
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RIO — No mesmo mês em que a feira CES de Las Vegas mostrou várias iniciativas ligadas à tecnologia automotiva — apontada como a próxima fronteira da inovação com os gadgets vestíveis —, foi divulgada uma pesquisa mundial da Accenture com 14,1 mil motoristas de 12 países para saber com o que mais sonham em seus futuros carros hiperconectados. No Brasil, foram entrevistados mil motoristas e, em vista dos 80 milhões de veículos existentes hoje no país (aumento de 123% nos últimos dez anos, enquanto a população cresceu 11%), muitos responderam pensando nos cada vez mais densos engarrafamentos no país.
Dos entrevistados, 86% afirmaram desejar que seu veículo identificasse previamente a situação de sinais de trânsito, retenções, acidentes e congestionamentos, informando-os previamente sobre problemas.
— O brasileiro quer evitar estar no trânsito, por isso deseja informações antecipadas sobre o tráfego no próprio automóvel. É algo que se coaduna com o alto nível de utilização do Waze no Brasil (o app tem mais de seis milhões de usuários no país) — afirma Alberto Claro, diretor executivo da Accenture no Brasil.
A automação e a tomada de decisões independentes pelo veículo também são itens altamente cobiçados pelos motoristas nacionais — 65% gostariam que seu carro tivesse um piloto automático. Essa porcentagem foi a maior entre os motoristas de todos os países que expressaram o mesmo desejo.
— E esse piloto automático dos sonhos seria adaptativo, isto é, capaz de, por exemplo, perceber a aproximação de um veículo e diminuir a velocidade para evitar um acidente — explica Alberto Claro.

Estacionamento eletrônico

Quase a totalidade dos ouvidos — 93% — quer ainda ter no carro um sistema de e-Call que, em caso de acidente, fizesse incontinenti uma ligação de emergência. E 61% gostariam que o veículo parasse sozinho em caso de necessidade, como na eventualidade de um enfarte ou derrame do motorista, que o fizesse perder o controle da direção.
Na hora de estacionar, 81% dos motoristas sonha contar com um carro capaz de fazê-lo sozinho, ou pelo menos apresentar assistência computadorizada integral para o procedimento.
— Essa “autodireção” mostrada em protótipos em Vegas ainda vai levar um tempo para acontecer aqui — reconhece Claro. — Mas se percebe a vontade de trabalhar melhor a conexão no veículo, melhorar a maneira como a pessoa conecta sua vida e as informações relevantes ao carro. Todos os dias, ficamos mais de 30 minutos nele, pelo menos, e esse é um tempo que gostaríamos de utilizar de outra forma. Daí a ânsia de estar on-line no sistema automotivo, poder verificar e-mails, mensagens e redes sociais.
De acordo com a pesquisa, 55% dos motoristas brasileiros buscam ficar conectados o tempo todo, com conteúdo noticioso via rádio, web e apps, buscando atualizações sobre tráfego. Mas 69% gostariam de ter câmera de vídeo no veículo para gravar incidentes.
— Quando se trata de informação no carro, nos parecemos mais com os motoristas de mercados como China e Malásia — compara Claro. — Já quando mencionamos o entretenimento a bordo, nos parecemos mais com EUA e Europa. Mas as correlações variam.
Há alguns gargalos que dificultam a chegada ao Brasil da tecnologia automotiva de última geração. Segundo a Accenture, se as montadoras decidirem que o custo de importar essas tecnologias se paga, será possível alcançar os mercados mais avançados com alguma rapidez. Do contrário, teremos de esperar mais. Outro fator que também pode atrasar a chegada das tecnologias é o perfil de nossos automóveis.
— O setor ainda vai muito bem, com uma retração de cerca de 1% em 2013 em relação a 2012, mas o número de carros entry level, básicos, é muito maior que nos países mais avançados. E esses automóveis naturalmente não têm muitos recursos high tech — diz Claro.
A problemática infraestrutura de telecomunicações do país pode ser mais um entrave à conectividade das futuras soluções automotivas. Na semana passada, as operadoras Oi e Claro foram multadas em mais de R$ 3 milhões cada pelo Procon Carioca por falharem na maioria das medições de velocidade de banda larga pré-paga no Rio.
— A Anatel deveria fiscalizar mais as operadoras, que investem muito em publicidade mas não o suficiente em infraestrutura — afirmou ao GLOBO a secretária municipal de Defesa do Consumidor e coordenadora do Procon Carioca, Solange Amaral.

Android na dianteira

E qual seria o melhor sistema operacional móvel para essa aplicações veiculares? O Android seria mais open-source e busca se associar ao maior número de companhias (não por acaso a Google lançou em Vegas a Open Automotive Alliance, para fomentar o uso do sistema em carros), enquanto o iOS, da Apple, é um ecossistema mais fechado.
— Veja que até bem recentemente cada montadora tinha suas próprias tecnologias, e só agora elas começam a se voltar para sistemas mais abertos — lembra Alberto Claro. — A Google está atenta a esse mercado, tanto que comprou o Waze, e busca se tornar uma provedora mais completa nessa área, enquanto a Apple tem uma cultura mais vertical — mas é cedo para dizer qual dos dois sistemas predominará.
Finalmente, toda essa tecnologia nos carros pode ser uma faca de dois gumes. Segundo o executivo, sempre existirão aqueles que, de posse de informações prévias, irão para as redes sociais avisar sobre equipamentos de vigilância em ruas e estradas.
— Por outro lado, a partir do momento em que se tem um sistema de monitoramento independente dentro do carro, e vigilância automática mais inteligente nas estradas (por exemplo, medição da velocidade média dos veículos em toda uma estrada, não só controles pontuais com câmeras), isso poderá levar à maior disciplina por parte dos motoristas — conclui.

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